segunda-feira, 21 de abril de 2014

Estudo sobre Jean-Baptiste Debret, com base no livro Forma Difícil: Ensaios sobre a Arte Brasileira

(fotos retiradas da Internet, sendo que a maioria das obras está exposta em Museus de Arte em São Paulo e Rio de Janeiro)


A análise que o crítico e escritor Rodrigo Naves faz sobre o artista francês, Jean Baptiste Debret, no livro “Forma Difícil: Ensaios sobre a Arte Brasileira”, é, sem dúvida, um instigante mergulho na história da arte no Brasil, considerando que Debret chegou com uma missão francesa que tinha o propósito de fundar uma Academia de Belas Artes, na então colônia de Portugal que naquele momento era sede da corte portuguesa.



Naves identifica nas obras de Debret algo mais profundo e sensível, do que apenas pinturas documentaristas importantes para etnólogos, historiadores e antropólogos. Algo que revela o esforço que o pintor francês fez para adaptar-se à realidade brasileira, pondo em xeque a sua formação neoclássica.
“(..) Não resta dúvida que Debret teve uma preocupação documental acentuada.(...) No entanto, uma parcela significativa de seus desenhos – principalmente os que envolvem as atividades dos negros de ganho do Rio de Janeiro – tem, por assim dizer, uma dimensão a mais, que confere uma nova realidade às cenas e objetos representados. Nessas aquarelas Debret incorpora uma dinâmica social típica do Rio de Janeiro, e apenas um ponto de vista que vai além do aspecto puramente documental poderá revelar o quanto essa mudança formal do seu trabalho proporcionará não somente ganhos artísticos, como também uma melhor compreensão da vida na colônia. (...)”.

Primo e discípulo do pintor da era napoleônica Jean Louis David, ao tomar contato com o Mundo Novo - sua natureza exótica e o cotidiano de seus habitantes - Debret praticamente abandona os cânones do neoclassicismo. Segundo Rodrigo Naves, diante da constatação de que seria impossível aplicar um sistema formal pré-estabelecido à representação da realidade colonial brasileira, totalmente diversa da França napoleônica, Debret procura adequar e adaptar certos pressupostos do neoclassicismo a aspectos de um cenário que lhe era totalmente estranho. Rodrigo Naves neste ensaio analisa com maestria como Debret move-se nessa contradição própria de valores culturais.
  


“(...)Para um artista formado nos embates do final do século XVIII francês, essa dimensão pública certamente tinha algo de postiço. Apoiava-se sobre o trabalho escravo, em uma Corte fugida e tinha lugar num ambiente urbano absolutamente precário. A forma exemplar e heróica dos neoclássicos jamais faria sentido aqui. Tampouco havia no país enfrentamentos poderosos que justificassem uma concepção grandiosa da história. Então Debret, desde sua chegada, voltou sua atenção para a precariedade da vida na cidade do Rio de Janeiro e encontrou na aquarela o meio adequado para representar as cenas de um cotidiano inteiramente novo para ele,” afirma Naves.(...)”(texto transcrito do artigo escrito pelo autor no site www.nossahistoria.net - Ano I- nº 5 – maio/04)

Pitoresca
Exatamente a palavra “pitoresca” utilizada corretamente por Debret na coletânea de suas obras Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, que apresenta, como numa metáfora, a feição dessa, então colônia portuguesa governada por um monarca europeu fugido;  exterioriza o espírito, o cerne da questão que coloca o artista na contramão de sua formação e põe em “xeque” a sua formação neoclássica.
 “(...) Mais do que um aspecto anedótico e perversamente pitoresco, a feição rudimentar do Rio de Janeiro inviabilizava na prática uma atuação normal de Debret e seus companheiros. O neoclassicismo francês defendia uma arte em que a vontade conduzisse a natureza – sobretudo a natureza humana – as manifestações virtuosas e belas.(...) Como esperar que o Rio de Janeiro apresentasse, minimamente, um perfil que justificasse com verossimilhança aquele  tipo de solicitação”. I...)”

A trama – miséria com foco na escravidão e riqueza - incorporada formalmente em algumas obras de Debret deixam explicitadas, em sua estrutura, a dubiedade dessa sociedade colonizadora. E é essa singularidade de nossa poética que se apresenta também em outras fases da arte brasileira, que Rodrigo Naves resgata e chama atenção como um bom observador e crítico.

No modelo de Rodrigo percebe-se que boas artes plásticas sempre têm algo a revelar. A tarefa crítica deve passar das estruturas imediatas do conhecimento às estruturas profundas”.( Vinicius Figueiredo)

 Na verdade, o estudo sobre Debret realizado pelo crítico na obra “A forma Difícil” apresenta as raízes, o princípio da ambiguidade da nossa modernidade social que se consolida ao longo da história da arte brasileira. Os aspectos paradoxais de uma corte sem poder, fugida, e instalada às pressas numa de suas colônias, fora dos padrões estabelecidos pela sociedade européia foram pincelados pelo artista em detalhes  que não passam despercebidos do escritor.

 “(...) Mas dentre todos os aspectos da vida fluminense, o que certamente mais a diferenciava de uma cidade européia era a existência generalizada da escravidão. De um total de 79.321 pessoas, 45,6% trabalhavam como escravos no Rio de Janeiro. John Luccock, que viveu entre 1808 e 1818, relata que ‘quase todos os serviços urbanos eram executados por escravos, e que ‘(...)a um estrangeiro que acontecesse atravessar a cidade pelo meio do dia quase que poderia supor-se transplantado para o coração da África.’ O próprio Debret assinalava que ‘tudo assenta, pois, neste país, no escrevo negro; na roça, ele rega com seu suor as plantações do agricultor; na cidade, o comerciante fá-lo carregar pesados fardos; se pertence ao capitalista é como operário ou na qualidade de moço de recados que aumenta a renda do senhor. (...)”


Naves chama a atenção para o fato de que Debret mostra cena de trabalhos pouco extenuantes.  Se  prende muito mais em mostrar escravos de ganho vendedores de quitute, frutas, do que trabalhadores de moendas, que se esforçavam desumanamente. Mesmo os negros acorrentados eram retratados em momentos de descanso.

“(...)Sem dúvida, surge daí uma placidez excessiva, embora a concessão ao vício – a pausa para os escravos comprarem fumo – fale também um pouco em favor da relativa calma do desenho. (...) Mas Debret articula indivíduos e ambiente de uma maneira particular, reveladora de sua situação na cidade – ações que não determinam seu espaço, gestos que não encontram desdobramentos(....)”

Para entender melhor o contraponto observado por Naves nas obras de Debret é interessante citar o filósofo Hegel, na concepção que faz sobre a história. 

A história é o lento processo para o auto-conhecimento do espírito. E o espírito faz isto se exteriorizando. A história é a lenta decantação pela qual o espírito se exterioriza”. ( Vinicius Figueiredo).


A partir de uma formação neoclássica, Debret fez esta decantação espiritual e exteriorizou em suas aquarelas o espírito da sociedade na época.

Por isso, o autor da “Forma Difícil” inicia o capítulo com uma certa ironia. O crítico, na medida em que desenvolve o texto  e faz a crítica, o crivo, às obras de Debret,  seduz o leitor de tal forma apresentando e comparando situações que até hoje são explicitas na arte brasileira.

A poética de Debret tem um caráter dúbio porque mascara as questões sociais de senhor e de escravo. O artista dá colorido à escravidão e ameniza a rudeza do senhor dos escravos. Uma ambiguidade que ainda permanece na modernidade social. “A forma plástica brasileira condensa uma ambiguidade que esta na matriz social”.

“(..) Os problemas da obra brasileira de Debret decorrem, mas provavelmente, de uma escolha  oposta – da grande resistência a um produção que fosse, de saída artística. Nos seus desenhos, a incorporação de uma sociedade poucas mediações conduz à de produção de formas acanhadas. Não foi à toa que apenas nas aquarelas Debret pode alcançar o que almejava.(...) O fato de Debret ser observado, na enorme maioria dos casos, como documentarista contém, assim, uma verdade. Apenas uma apreciação detida e comparativa consegue livrar seus trabalhos do aspecto testemunhal e pitoresco (...). Com Debret, a representação do Brasil urbano de começos do século XIX ganha uma nova dimensão, que a miséria contemporânea em parte ainda avaliza.(...)
Nessa apreciação detida e comparativa, o crítico foi fabulosamente minucioso trouxe ao leitor aspectos sociais e artísticos que passavam despercebidos para estudiosos em história da arte. É uma leitura imperdível para entendimento de toda seqüência histórica – Semana de 22 e os movimentos: concretismo e neoconcretismo.

(...) A ligação de Debret com o neoclassicismo parece dar um duplo sentido a sua obra brasileira. Por um lado, o caráter empenhado da estética neoclássica favorece a interrogação penetrante sobre a relação entre arte e contexto social. (...). Nem transcendência religiosa, nem radicalidade mundana, a arte de Debret ficou numa região intermediária, entre a crítica e resignação.(...)”

Talvez uma resignação de não poder dar a forma neoclássica aos personagens que se apresentavam nessa sociedade exótica e, ao mesmo tempo crítica quando revela sutilmente a complexidade de um problema social.


“(...) Em vários de seus desenhos, Debret revela de maneira mais profunda – porque formalmente mais complexa e com uma força estrutural maior – esse descompasso que atravessa a vida no Rio  de Janeiro. (...)”



E para finalizar, o ensaio crítico de Rodrigo Naves sobre as obras brasileiras de Debret faz da produção do artista francês um documento sociológico. A maneira particular com que Debret exterioriza a sua essência revela a singularidade do processo social no Brasil e é exatamente aí que aparece a base da nossa matriz social.














 










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