quarta-feira, 12 de março de 2014

Culinária sensorial que se transforma em arte

Há pouco mais de um mês, quando fui convidada para jantar na casa de Roberto e Fernanda lembrei do texto "Pastoral"de Clarice Lispector, e de "Afrodite", de Izabel Allende, ambas descrevendo o prazer sensorial da comida e de uma mesa elaborada com arte e imaginação.


"Uma senhora conhecida nossa tem como uma das características não se apoiar na imaginação alheia para usar a própria. A tudo na vida aplica o seu poder inventivo que, por mais longe que vá, não cai nunca em mau gosto ou extravagância. Fomos, por exemplo, convidadas a um almoço em sua casa. Na hora formal de passar para a sala de jantar, a ligeira cerimônia foi interrompida pela visão da mesa mais bonita que se possa imaginar para qualquer dia, quanto mais para um sábado de sol. Sobre uma toalha de linho grosso, a decoração era, como se diz, uma festa para os olhos. Não se tratava de cristais de Murano nem de louças de séculos extintos.  Nossa amiga compusera como centro de mesa a mais viva das naturezas mortas"(...) Clarice Lispector.

"O prazer de um sabor centra-se na língua e no céu da boca, embora com frequência não comece ali, mas na lembrança. E parte essencial desse prazer reside nos outros sentidos, na visão, no olfato, no tato, inclusive na audição. Na cerimônia do chá no Japão, o gosto da bebida é o menos importante - na verdade o chá é amargo - mas a serena intimidade das paredes nuas, as formas depuradas dos utensílios, a elegância do ritual, a concentrada harmonia dos gestos de quem oferece o chá, o quieto agradecimento de quem o recebe, o tênue odor da madeira e do carvão, o som da concha ao verter a água no silêncio do aposento, tudo constitui uma celebração para alma e para os sentidos". (...) Izabel Allende. 


Portanto, Roberto dirigiu um jantar que me ficará na memória, principalmente porque associarei sempre aos textos de Clarice Lispector e Izabel Allende, quando tratam da arte culinária.

 Apenas um parêntese, Roberto é um jovem amigo do meu genro Gustavo e Fernanda, amiga da minha filha Paula. O casal me ofereceu um carinhoso jantar para agradecer por ter feito parte da história deles, oferecendo minha casa para o primeiro encontro. Desta história, que pode virar conto, já nasceu Laurinha.....

Bem.... voltando ao tema arte culinária e os prazeres sensoriais dos alimentos, Roberto seguramente usou sua própria imaginação e incorporou o verdadeiro gourmet, ao ponto de não sentar para jantar com a gente, apenas servir pratos tão amorosamente trabalhados por ele, que na medida em que colocava na mesa os nossos olhos os devoravam antes da primeira garfada chegar à boca.

Já no início do ritual, ops, do jantar, recebemos o cardápio. Era feito de forma artesanal, simples, de papel A4, mas por ser personalizado para o momento, descrevendo os pratos a serem servidos e uma ilustração com meninas na capa, transformou-se  no mais elegante menu aos nossos olhos.

Daí para frente, Roberto ia e vinha da cozinha, em silêncio, concentrado na sua tarefa de agradar e alimentar com arte suas convidadas.
  


Primeiro a entrada, um Rondeli de mussarela de búfalo, acompanhado por um aperitivo - um espumante batido com pêssego - de sabor doce e suave para aguçar o paladar.

Com isso já estava me sentido protagonista de um filme igual ao da "A Festa de Babette", que Izabel Allende descreve tão bem a sensação dos convidados no livro Afrodite:

 "Em 'A Festa de Babette', aquele comovente filme baseado no conto de Isak Dinesen, a câmera vai e vem entre a cozinha, onde se preparavam amorosamente os pratos, e a sala de jantar, onde os rostos severos desses estóicos habitantes de um mundo distante e gelado vão mudando, à medida que o vinho e os alimentos se apoderam de seus sentidos"...

Não eramos habitantes de uma terra distante mas seguramente os alimentos começaram a se apoderar dos nossos sentidos e o "rir à toa", regado pelo bom vinho que Roberto nos ofereceu, fez parte daquela noitada inesquecível. 



O prato principal - salmão com ervas e tomate seco - foi servido logo após termos degustado a salada, tão colorida quanto a diversidade natural de nosso Brasil. A concha roxa de repolho, ali tão bem colocada no prato, mais parecia uma delicada pétala de flor, abrigando as tenras folhas verdes picadas em meio as azeitonas suculentas, tomates e rodelas do mais macio palmito pupunha.


Para encerrar esta orgia sensorial, Roberto serviu um saboroso mamão com cassis, que foi saboreado avidamente pelas convidadas como se fosse servido no Olimpo, na categoria de sobremesa dos deuses.

Enfim, este texto foi criado para citar minhas fontes inspiradoras, Clarice Lispector e Izabel Allende, e mostrar que o cenário e a performance transformam o olhar e os sentidos.

Tanto é verdade que certa vez, há muito anos, na minha época de "bicho grilo", fazendo um curso de Yoga, na chácara da Mary, uma exótica e extravagante professora que morava em Piraquara, numa casa também exótica, em meio a gatos e cachorros, experimentei pedaço de pão sem fermento e de farinha integral firme e quase duro, mas de um sabor indescritível, quase dos deuses naquela atmosfera excêntrica da casa de Mary.

Durante o café, num cozinha escura, cheirando a fumaça de um fogão a lenha, com gatos entrando e saindo do local, aquele pão foi tão saboreado por mim, que se derretia na minha boca. Pedi a receita para fazer em casa.....

Mas quando me empenhei em fazer aquele pão tão natural, esqueci dos detalhes mais importantes, não tinha o mesmo cenário da chácara, o escuro, o fogão a lenha, a fumaça, os bichos, e nem a paciência yogue de Mary. 

Pura pedra. Sim, meus pães saíram do forno quentinhos e duros como pedra. Nem um simples mortal seria capaz de mastigá-los. Por pouco não os deixei decorando o meu jardim!


4 comentários:

  1. Fantástico!!! Me deu água na boca!!!! Esta refeição foi praticamente uma poesia!!!!!

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    1. Verdade Paula. Foi saborosa pela etapas que percorremos durante as horas que estivemos ali.

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  2. Seu texto é muito lindo, muito bem escrito - uma doçura de palavras que nos faz transportar para o contexto que estamos lendo ... quase que vivencio tudo de novo, sentindo os sabores e cheiros...
    bjos suaves

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    1. Obrigada querida! Escrevi exatamente o que senti na ocasião e quando li o texto das duas escritores achei sensacional que tinha já vivenciado uma situação quase igual.

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